quarta-feira, 23 de março de 2011

Tear down the wall!


Uma metáfora, um concept-album pensado ao mesmo tempo que o espectáculo que o promoveria, e mais tarde viria a dar um filme.

A estória de um artista que se deixa levar pelo hedonismo e pelos fantasmas de uma mãe super-protectora, a segunda guerra mundial que lhe terá levado a figura paterna, professores abusadores e esposas descontentes. Um alter-ego do próprio Roger Waters, à data com dificuldade em lidar com a escala da sua fama e notoriedade, em que os fãs se tornam uma mole de milhares, e a dimensão humana se perde.

Roger Waters propôs à banda: - E se fizéssemos um espectáculo separados do público, por um muro?

Foi a primeira pedra do que viria a ser The Wall. Alienação, frustração, isolamento. E o resultado? Uma verdadeira lição de rock. Pela escala, pelos efeitos visuais, e, acima de tudo, pela plétora de pequenas canções perfeitas e simples que compõem o álbum / espectáculo. Não vou entrar na complexidade dos efeitos visuais, que até a mim deixam intrigado pela complexidade técnica. É o todo, a ideia unificadora, o fio condutor do espectáculo. O álbum The Wall para mim, que o levo à letra e me identifico, é bastante triste e depressivo, mas no disco não há redenção, ao passo que no concerto vemos o muro vir abaixo. Saímos de lá felizes. O muro torna-se o bode expiatório para os receios e frustrações do próprio público.

Assim, este é talvez o único concerto onde ninguém tem esperança de um encore, pois o palco é invadido por tijolos de cartão. Partem a loiça toda.
Pink, o personagem-estrela-rock-que só aparece na terceira parte e até lá tem banda de substituição, é julgado e condenado a ser exposto aos seus maiores medos. E nós aplaudimos. Se The Wall como obra de arte reflecte o seu tempo, não perdeu a sua actualidade.

2 comentários:

  1. Estive no espectáulo de dia 22 no Pavilhão Atlântico. Gostei muito e só posso tirar o chapéu a momento de tão alta qualidade. A todos os niveis. A tecnologia esteve do lado da arte e deliciou os espectadores. Foi de admirar a forma como as projecções, os cenários e os efeitos de luzes deram força às sucessivas mensagens que iam surgindo ao longo de todo o concerto.
    Foi muito interessante assistir à adaptação de uma obra pessoal para uma vertente politica e colectiva. The Wall é uma dramatização de um percurso individual mas que consegue aumentar em sentido e profundidade quando se reflecte na sociedade. Milhares de pessoas que se identificam com esta ópera-rock são um valioso testemunho de que o que estamos a ver e a ouvir corresponde à realidade.

    ResponderEliminar
  2. Perante a minha falta de palavras por lá não ter estado e a análise fantástica que vocês fazem - Montenero e Astromar - só me resta deixar um comentário à Facebook: GOSTO (e acrescentando: tive pena de não testemunhar esta obra intemporal).

    ResponderEliminar